bengala


o que eu falo, o que eu penso, o que eu sinto, o que eu preciso, como estou. nada disso nunca importou e não vai importar.

me sinto como uma espécie de ímã de problemas. pessoas chegam, descarregam em mim suas histórias e lamentos, resmungam, não fazem nada pra mudar e depois de estarem felizes e sorridentes, não estão nem aí.

sirvo como uma bengala para as pessoas atenderem suas necessidades.e, como toda bengala, depois que perde a utilidade, fica de lado, atrás de uma porta, sendo devorada por cupins.

mas e quando for a minha vez de precisar de uma bengala? e quando eu acordo e a única coisa que penso é “Deus, como eu queria dormir e dormir e dormir num sonho sem fim”?

agora, sou eu quem preciso de uma bengala. mas, de tanto servir de bengala para quem bem quisesse, eu estou cansado. não posso ser minha própria bengala e não tenho outra bengala em que me segurar.

então, qual a solução? se arrastar? reclamar? não. de jeito nenhum.
como qualquer objeto que se use, eu continuarei sendo a minha bengala e a de quem quiser.
vou quebrar, me machucar, chegar ao limite e ir um pouco mais além. mas, e daí? quem realmente se importa?

no final do dia uma bengala é somente uma bengala. disprovida de qualquer tipo de luxo, emoção e desejo.

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