Minha mãe se chama Elisa, nasceu em 1949 no interior da Paraíba. Durante a infância enfrentou a rígida educação de uma família tradicional do interior. Meu avô Josias era muito severo e minha avô Raimunda, como todas as mulheres da época, aceitavam as imposições dos maridos. Minha mãe sempre quis estudar, ter um futuro promissor. O meu avô a proibia mas ela o fazia escondido. Foi pega, e castigada. Ela já não agüentava mais a vida que tinha e com 9 anos foi embora de casa. Trabalhou como doméstica em diversas famílias. Na adolescência ingressou na carreira de modelo e na televisão. Participava de desfiles, foi Silvete, fez figurações em algumas novelas.
Um pouco mais tarde conheceu quem viria a ser meu pai, Marcello. Minha mãe o amava demais, embora minha avó paterna, Virginia, fosse contra a união dos dois. Talvez ela devesse ter percebido os sinais.
Eles ficaram juntos por muito tempo até o casamento. Meu pai, como grande maioria dos machões da época, não queriam que suas esposas trabalhassem e impôs à minha mãe que para casar, ela teria que abandonar a carreira. Minha mãe, pelo grande amor que tinha, abandonou a carreria e decidiu ser esposa.
Durante o tempo em que ficaram juntos, minha mãe e meus avós paternos se dedicaram ao máximo para o sucesso do meu pai. Minha mãe, por diversar vezes, deixava de comer para que ele comesse. Os esforços deram certo. Meu pai construiu uma carreria bem sucedida, trocando o cargo de office-boy por um grande cargo na empresa em que trabalhava.
Minha mãe tinha problemas para engravidar e tentou diversos tratamentos. Felizmente conseguiu dar à luz a 2 crianças saudáveis e perfeitas. Mas, nem tudo foi flores. O primeiro filho faleceu no dia em que nasceu por problemas respiratórios em conseqüência de uma gravidez complicada. Ele se chamaria Carlos Eduardo e hoje teria seus 32 anos. Em seguida, minha mãe deu à luz a Fernanda, que hoje tem 25 anos. Em seguida, uma nova perda, minha mãe perdeu o que seria sua segunda filha. Porém, ela continuou tentando, em em 06/11/1984 eu nasci. Depois do meu nascimento minha mãe tentou novamente e pela última vez engravidar. Conseguiu, mas sofreu um aborto natural pouco antes de nascer.
Durante os anos de casada minha mãe se dedicou inteiramente a meu Pai, minha irmã e eu. As nossas vontades eram as vontades dela. E ela o fez com orgulho e felicidade. Graças ao sucesso profissional do meu pai, minha mãe pode colher os frutos de tantos anos de esforço e pode nos oferecer uma vida estável. Porém, em 1990 dois acontecimentos marcam a vida da minha mãe e as nossas: o falecimento da minha avó Raimunda e a separação dos meus pais.
O fim do casamento dos meus pais foi um alívio. Não agüentava mais vê-los brigando e não entendia a agressividade gratuita do meu pai. Para evitar isso, quando o casamento já está por um fio, minha mãe fazia com que eu e minha irmã fossemos dormir antes de ele chegar. Ficava dias sem ver meu pai. Enquanto, minha mãe sozinha enfrentava os fantasmas do fim do casamento. Meu pai dava as velhas desculpas de que ia jogar “squash” à 1 hora da manhã e minha mãe recebia telefonemas de uma mulher insuportável que ficava a ameaçando e dizendo besteiras. No carro do meu pai minha mãe notava cabelos e um perfume estranho. Um fim de casamento decadente.
Eu ainda não tinha completado 6 anos e minha irmã ainda tinha 9. Naquele momento a vida da minha mãe desabou. Ela já tinha 42 anos e se via completamente perdida entre um turbilhão. O fim do casamento representava o fim da vida dela. Mas, bravamente, minha mãe se esforçou e vestiu uma armadura para que nós não vissemos o seu sofrimento, mas era em vão. Minha mãe havia se tornado uma pessoa infeliz e sem perspectiva, mas mesmo assim lutava para mostrar a mim e minha irmã que estava tudo bem.
Nos anos seguintes minha mãe se endividou para que nada faltasse para a gente, se humilhou. Tentou se matar em 1992 mas por um milagre, no dia em que isso ia acontecer, uma conhecida de uma amiga dela apareceu em casa e a confortou.
Em 1993 ela acolheu o anjo que faz parte de nossas vidas, minha irmã Beatriz, que hoje tem 13 anos, é extramemente inteligente e tem o dom de desenhar que deixa qualquer um babando. No mesmo ano minha mãe trouxe minha prima Priscila para morar com a gente.
Mas, até 2001 passaríamos pelos piores dias de nossas vidas. Estávamos todos em clima de guerra, no fundo do poço. Lembro dia em que não tínhamos mais nada nos armários para comer apenas um pacote de macarrão e um vidro de alcaparras. Ainda consigo lembrar do rosto triste da minha mãe cozinhando. Ficamos meses sem pagar luz, água, telefone, iptu, nossa casa foi notificada de leilão. Até então meu pai e esposa dele humilhavam muito a minha mãe, dizendo que ela era uma inútil, folgada, espaçosa. Ela simplesmente chorava. Eu já não agüentava. A guerra da minha mãe era a minha guerra. Enfrentei meu pai e sua esposa e não me arrependo. Não era justo o que faziam com minha mãe.
Felizmente, o ano de 2001 seria o último pior ano de nossas vidas. Vendemos nossa casa, mudamos para um apartamento menor, as brigas entre nós e com meu pai viriam a acabar. Minha mãe estava radiante. Ela se desvinculava da casa que serviu de palco para suas maiores tristezas. E realmente as lágrimas ficaram naquela casa.
Estamos nesse apartamento há 5 anos e estamos tendo os dias mais felizes de nossas vidas. Minha mãe está calma, feliz, em paz. Ela que desde pequena passou por diversas barreiras, agora pode ficar mais tranqüila. Ela ainda continua se dedicando a mim, à Bia e à Priscila. A Fernanda, em 2004, foi morar na Austrália e está lá até hoje.
Semana passada minha mãe recebeu um enorme presente – um tratamento que pode trazer a estabilidade de um problema de saúde que ela sofre há mais de 23 anos, a Psoríase.
Eu amo minha mãe mais do que tudo nessa vida. Ela me ensinou como enfrentar as piores barreiras do mundo, me ensinou a ser uma pessoa boa, me mostrou virtudes que se não fosse por ela jamais as teria. Ela me abraçou e me deu conforto nos momentos mais difíceis. Ela não foi simplesmente uma mãe. Ela foi uma mãe, um pai, avós, tios, tias. Ela foi o mundo pra mim. E ainda é. Tudo o que faço hoje é nela em quem eu penso pois ela merece todas as melhores coisas do mundo.
Mater, mãe, mother são apenas palavras. O que elas significam para mim eu não teria como dizer. Minha mãe é a melhor e mais fantástica pessoa desse mundo todo! Ela é uma vencedora! Ela é uma heroína! Ela é minha mãe!!
#1 por Tom - 29 de outubro de 2006 em 21:59
Todas as MÃES merecem o Céu, digaê…
Parabéns à sua mãe por ter toda esta garra e pelos filhos maravilhosos que tem.
Abraço, tio!