o menino, as letras e a luz


Eu via a mãe com a filha no balancinho, o pai com o filho nos ombros. Meninas que não deveriam ter mais de 10 anos com seus vestidos rodados e seus laços na cabeça. Eu pensava, Há algo errado/Porque essas meninas estão de vestido para brincar no parque?/Elas vão se sujar.

Olhando mais fundo, vi um garoto, embaixo de uma árvore. Ele usava suspensórios, gravata borboleta, cabelo com gel repartido milimetricamente perfeito. Sentado como índio, ele não era atingido pela luz do sol e não interagia com ninguém. Tentava esticar as pernas mas quando o sol as tocava, ele as retraia novamente. Ele ria e olhava pra cima, para os lados, como se estivesse desconfiado. Na mão dele não dava para ver bem o que tinha, mas pareciam letras e luzes. Ele as embaralhava e alternava entre as suas mãos. Tentava formar frases mas parecia difícil pois a luz vermelha em sua mão esquerda caía o tempo todo, e ele perdia a concentração. E, se alguém chegasse, se aproximasse, ele escondia a luz e respirava aceleradamente. Ficava tenso.

“Me deixe segurar essa luz para você”, disse um senhor, com os cabelos bem brancos e bigode. O garotinho respondeu “A luz? Não posso. Se você quiser segurar as letras, eu deixo.” O senhor, deu um sorriso e disse “Mas é somente uma luz, assim você poderá brincar melhor com suas letras ou com as outras crianças”. Desconcertado, o garotinho respondeu “Talvez para o senhor seja apenas uma luz, mas para mim é muito mais. Leve as letras, mas me deixe à luz.”

O senhor, espantado com a postura do garoto, insistiu “Por que ela é tão importante para você?” O garoto respirou fundo e largou as letras para colocar sua minúscula mão no rosto do velhinho. “Todos neste parque estão focados somente em uma coisa ou brincando entre si. Eu não, não posso. Agora só tenho uma mão em seu rosto e a outra segurando a minha luz vermelha ainda mais forte. Enquanto ela brilhar, tudo o que eu lhe disser será sincero e jamais estarei sozinho. Do que me adianta as palavras prontas e deixar essa luz apagar porque me esqueci de cuidá-la?”, disse o menino.

O garoto levantou, e com um leve sorriso tímido deu um beijo na testa do senhor e foi embora. As letras ficaram espalhadas no chão. O senhor, trêmulo, tentou formar alguma palavra mas não conseguia. Naquele momento, um sentimento familiar preencheu o vazio que há muito tempo roncava em seu peito e percebeu que aquela luz não era uma simples luz. Aquela luz era o amor em sua forma mais radiante, pura e verdadeira.

  1. #1 por R.Dalecio - 21 de janeiro de 2008 em 14:15

    Acho que o velhinho deveria montar alguma palavra com as letras…

  2. #2 por Fabi - 14 de agosto de 2008 em 15:27

    Sublime!!!!

(não será publicado)
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